Rastreamento de doenças crônicas: guia completo sobre como agir na empresa

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Nos últimos anos, encaramos um crescimento expressivo nas chamadas Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT). Abrangendo condições como hipertensão, diabetes ou doenças oculares, esse conceito é responsável por uma parcela considerável dos gastos em saúde. Por isso, no Brasil e no mundo, as empresas buscam maneiras de frear o crescimento das DCNT — e o rastreamento de doenças crônicas é uma delas.

Segundo a Sociedade Brasileira de Patologia Clínica, cerca de 72% dos pacientes descobrem uma doença crônica apenas após o aparecimento dos sintomas. Nesse ponto, a patologia já está instalada e alguns de seus efeitos já podem ser irreversíveis.

Por isso, descobrir a doença em seus estágios iniciais e assintomáticos é crucial para controlar suas complicações. A seguir, explicaremos como a medicina preventiva auxilia nessa tarefa e como ela pode ser colocada em prática nas empresas. Continue lendo para saber mais!

O que são doenças crônicas?

Até a metade do século XX, a medicina era muito diferente da atual: as principais causas de morte estavam associadas a doenças infecciosas, como a tuberculose e a varíola, por exemplo. Nessas condições, o agravo de saúde é devido à infecção por um agente externo, de outra espécie.

Com o surgimento de novos medicamentos, vacinas e métodos antissépticos, conseguimos controlar eficientemente essas doenças; a varíola, por exemplo, já foi erradicada. Atualmente, com nosso esquema de vacinação e o arsenal antibiótico que temos, mortes por doenças infecciosas são muito menos prováveis.

Por outro lado, nosso estilo de vida atual também não é completamente saudável. Com o passar do tempo, nos tornamos mais sedentários e nossa dieta se tornou mais concentrada em gorduras animais e açúcares simples. Esses hábitos, hoje, são considerados o principal motivo do crescimento das doenças crônicas ao topo dos índices de mortalidade — um fenômeno que denominamos transição demográfica.

Nas DCNT, o vilão não é um organismo externo, de outra espécie. O que ocorre é uma disfunção gradual dos órgãos e tecidos humanos, que não aguentam a pressão à qual são acometidos. Com isso, eles se degeneram e frequentemente levam a complicações, que oneram a gestão de saúde e aumentam o risco de morte.

Exemplos clássicos de DCNT são as doenças cardiovasculares, como a hipertensão e o diabetes. Nessas condições, não há nenhum agente infeccioso: o que ocorre é uma sobrecarga do metabolismo frente a hábitos de vida pouco saudáveis.

O problema das doenças crônicas é que seus sintomas são sutis e se desenvolvem lentamente, levando o paciente a crer que está saudável. Por serem graduais, os sintomas podem gerar problemas e ainda assim passar desapercebidos — como, por exemplo, no ambiente de trabalho.

Quais são os impactos dessas doenças no ambiente de trabalho?

Nas fases iniciais das DCNT, mais da metade dos pacientes não sabem que estão doentes. No entanto, o processo patológico está em desenvolvimento, e pode deixar pistas disso no ambiente de trabalho.

Isso ocorre porque, estando doentes, os empregados estarão menos aptos a desempenhar suas atividades do cotidiano — e mais propensos a desenvolver complicações e doenças agudas. Um exemplo clássico disso é a depressão, uma DCNT, que já é a principal causa de incapacidade e o afastamento do trabalho no mundo.

Outro exemplo muito comum são as doenças oculares. Algumas delas, como o glaucoma, pioram lentamente e podem não chamar a atenção do paciente. No ambiente de trabalho, ele começará a enxergar mal sem perceber, afetando sua performance e aumentando o índice de erros. Daí a importância das consultas de rotina com oftalmologistas, sejam elas diagnósticas ou de acompanhamento.

Por fim, as DCNT também aumentam o risco de afastamento devido a exacerbações e doenças agudas. Pacientes tabagistas com enfisema pulmonar, por exemplo, estão mais propensos a pneumonias e infecções sazonais. Com isso, eles tendem a ser hospitalizados com mais frequência e a perder tempo útil de trabalho.

Por que a medicina preventiva em gestão de saúde é tão importante?

Você certamente já compreendeu a importância das doenças crônicas no cenário atual, assim como seu impacto no ambiente de trabalho. O próximo passo é saber quais são as abordagens possíveis para esse problema, e qual melhor se encaixa em seu modelo empresarial.

Inicialmente, é importante salientar que a maioria das DCNT não têm uma cura definitiva: pacientes hipertensos ou diabéticos, por exemplo, o serão pelo resto das suas vidas. No entanto, embora as doenças não sejam curáveis, elas ainda podem ser tratáveis. O tratamento de doenças crônicas geralmente continua pelo resto da vida, tendo o potencial de diminuir complicações e melhorar a funcionalidade dos pacientes.

Outra estratégia, largamente utilizada para as DCNT, é a prevenção e promoção da saúde. O termo “prevenção” é utilizado na descrição de práticas que reduzem o risco de desenvolvimento ou complicação de determinada doença. Os níveis de prevenção de doenças são os seguintes:

  • prevenção primária: neste nível, ainda estamos no período pré-patogênico — ou seja, quando a doença ainda não se instalou. O objetivo é combater os fatores de risco para determinada doença e evitar que, no futuro, o paciente a desenvolva. Um exemplo clássico é o desestímulo ao tabagismo, visando a redução de doenças pulmonares crônicas;
  • prevenção secundária: neste nível, a doença já se instalou, porém ainda está assintomática. Neste grupo, estão os 72% dos pacientes que mencionamos mais cedo, que têm a doença, mas não sabem disso. O objetivo da prevenção é diagnosticar precocemente as doenças para melhorar as chances de tratamento e reduzir as complicações. Um exemplo clássico é o exame Papanicolau na prevenção do câncer de colo de útero;
  • prevenção terciária: neste nível, a doença já se manifestou e já apresentou doenças. O objetivo é reduzir os danos causados à vida dos pacientes, assim como as taxas de exacerbações e a disfunção executiva. Um exemplo é o uso de hipoglicemiantes no diabetes, reduzindo as internações e as complicações da doença.

Em qualquer nível, a prevenção se mostrou eficaz por reduzir drasticamente os custos associados à saúde. Isso ocorre porque os métodos de prevenção são geralmente muito baratos, mesmo se aplicados a uma grande população. Por outro lado, gastos com complicações e internações de DCNT podem chegar a mais de 6% do PIB de um país.

Para ilustrarmos essa situação, podemos pegar como exemplo o exame Papanicolau, que mencionamos na prevenção secundária. Se realizado em uma grande população, ele tem o potencial de detectar precocemente a maioria dos casos de câncer de colo uterino. É um exame relativamente barato e fácil de ser colhido e analisado, tendo seu laudo rapidamente disponibilizado.

O câncer de colo uterino, no entanto, demanda muito mais recursos: quando ele é descoberto apenas na fase tardia, ele pode requerer internações, sessões de quimioterapia, radioterapia e cirurgias. Além do custo com a saúde da empregada acometida, a empresa também tem que arcar com a diminuição no desempenho da equipe.

Por isso, economicamente, é mais vantajoso rastrear todos os funcionários do que deixar passar um único caso. O caso específico do Papanicolau já é consagrado na medicina, comprovado por grandes pesquisas científicas; no entanto, medidas preventivas específicas também podem ser adotadas pela gestão empresarial, tendo como foco seu público e sua realidade específica. Detalharemos, a seguir, algumas dessas medidas.

Como fazer o rastreamento de doenças crônicas entre os colaboradores?

O rastreamento (ou screening) é qualquer método que vise o diagnóstico de doenças em pacientes assintomáticos. Seu uso é particularmente útil nas DCNT, que podem apresentar com poucos sintomas e com evolução gradual.

Como mencionamos, já existem muitos métodos de rastreamentos consolidados na medicina. Eles incluem o Papanicolau, mamografias, exames de toque retal para o câncer de próstata, aferição frequente da pressão arterial e controle de glicemia. No entanto, é possível elaborar programas direcionados para empresas, tendo como foco a situação de seus colaboradores. A seguir, detalharemos 5 medidas que podem ser utilizadas para essa finalidade.

1. Mapeie os hábitos de saúde dos colaboradores

O primeiro passo para um programa preventivo eficiente é conhecer seu público-alvo. Afinal, qual o perfil dos pacientes que serão o foco do programa? Quais hábitos de saúde eles já possuem? A frequência de consultas está adequada? Eles já possuem alguma doença prévia já conhecida?

Essas são perguntas que devem ser levantadas antes do mapeamento dos hábitos de saúde dos colaboradores. Para respondê-las, é necessária uma pesquisa de campo com parâmetros específicos: para saber a frequência de consultas, por exemplo, é preciso ter acesso aos serviços médicos disponíveis e aos registros das consultas.

Quanto mais detalhado for o seu mapeamento, melhores serão suas ferramentas para atuar na medicina preventiva. Por isso, é necessário escolher parâmetros estratégicos para serem levantados — e que possam, posteriormente, também ser utilizados para verificar a eficácia das intervenções. Confira, a seguir, algumas sugestões de dados que podem ser levantados.

  • gênero e idade dos colaboradores;
  • número de doenças previamente conhecidas;
  • hábito de consultas regulares com médicos;
  • número de afastamentos por motivos relacionados à saúde;
  • principais razões de absenteísmo relacionado à saúde;
  • medicamentos utilizados.

2. Identifique fatores de risco

Uma vez realizado o mapeamento, o gestor de saúde consegue ter uma noção mais detalhada da situação dos colaboradores. Se a idade média é relativamente alta, por exemplo, o risco de DCNT é maior; caso o número de mulheres seja maior ao de homens, medidas preventivas ligadas a elas devem ser priorizadas. Esses são exemplos simples de análise que podem ser levantados a partir do mapeamento.

É importante atentar, no entanto, que nem toda informação é tão explícita. Alguns indicadores em saúde requerem uma compreensão mais aprofundada, muitas vezes de um profissional da área.

Um exemplo desses casos são as doenças respiratórias: caso o gestor identifique que elas são uma causa importante de absenteísmo, é importante conhecer os fatores de risco já descritos para elas.

Nesse caso, é necessário ir além dos dados e analisá-los criticamente, para extrair o máximo possível de informações. É possível inferir, por exemplo, que algum fator ocupacional esteja predispondo o surgimento de algumas doenças, ou que o índice de tabagismo está excessivo na empresa.

3. Faça intervenções direcionadas

Uma vez identificados os fatores de risco, é necessário intervir de maneira eficaz neles; assim, você está garantindo uma diminuição no risco de complicações ou de surgimento de doenças. Para isso, é recomendado que você disponha de uma equipe técnica que conheça os métodos de rastreamento de doenças já consolidados no meio acadêmico.

4. Aposte na promoção da saúde

Anteriormente, falamos sobre o conceito de “prevenção da saúde”. É importante diferenciá-la de “promoção da saúde”, principalmente quando se está almejando uma mudança satisfatória na saúde da empresa.

Enquanto a prevenção foca em doenças específicas, a promoção da saúde consiste em estimular, no geral, hábitos de vida saudáveis. Participam desse grupo ações como o incentivo a atividades físicas e a hábitos de dieta equilibrada, por exemplo. Esses são comportamentos relacionados a uma série de doenças e que auxiliam os colaboradores a terem uma vida mais saudável.

Assim como a prevenção, a promoção da saúde também tem alta eficácia e baixos custos; métodos de conscientização eficazes podem ser obtidos até mesmo fora dos consultórios médicos, como por newsletters ou aplicativos.

5. Ofereça estímulos para a prevenção

Seja na prevenção ou na promoção da saúde, o engajamento do funcionário é fundamental para a eficácia da intervenção. Por isso, para aumentar esse parâmetro, você pode utilizar estímulos e benefícios para quem aderir às novas práticas.

Dentre os serviços que podem ser estimulados com a gestão de benefícios estão programas de prevenção específicos e consultas rotineiras com os médicos. O estímulo a áreas estratégicas, como a oftalmologia, pode direcionar seus esforços em prol das melhorias esperadas com a intervenção.

Tanto no contexto brasileiro quanto no mundial, as DCNT vêm ganhando crescente relevância nos últimos anos. Além de elas estarem crescendo em níveis alarmantes, elas também são responsáveis por maiores taxas de absenteísmo e queda na produtividade dentro das empresas.

O rastreamento de doenças crônicas é um método já consolidado para a redução de custos com a saúde. Dentro das empresas, utilizar esse conceito pode significar uma gestão mais eficaz e direcionada, que traga benefícios tanto à instituição quanto ao colaborador.

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